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quarta-feira, 8 de agosto de 2012

Psicologia Analítica



                                                                     Redação: Elisabete Fernandes            

A PSICOLOGIA ANALÍTICA

Brilhantemente, Jung conseguiu formular uma síntese de suas experiências pessoais, suas pesquisas, estudos e experiência profissional como médico psiquiatra dando corpo a uma obra ampla e profunda: A Psicologia Analítica.
O período intenso de confronto com o inconsciente o inspirou no desejo de encontrar uma nova atitude perante seus pacientes. Como eles relatavam espontaneamente sonhos e fantasias, Jung pensou que poderia simplesmente oferecer-lhes uma escuta formulando perguntas que lhes conduzissem para as imagens do inconsciente.
Ele desenvolveu o seu próprio método para interpretação de sonhos. Ele já não acreditava que para chegar aos complexos precisaria dos sonhos, já que a associação livre pode começar a partir de qualquer imagem, seja do sonho ou não, e alcança sempre os complexos. Para ele era necessário valorizar as imagens do sonho em si e não considerá-las apenas ponto de partida. O sonho é um retrato, uma mensagem que diz algo a respeito do sonhador.
A importância de pesquisar qual o mito vive o homem, intuição que lhe chegou de forma incomum, foi o ponto de partida para uma série de sonhos, fantasias, intuições e experiências parapsicológicas que duraram cinco anos e foram decisivas para a construção de conceitos fundamentais de sua teorização, como Anima e Animus, Arquétipos, sombra, Ego, Self, Inconsciente Coletivo e a relação da Alquimia com a Individuação.
Os fundamentos da sua Psicologia, além da sua obra, estão descritos em livros de diversos autores, alguns deles, seus discípulos diretos. E, com esse embasamento, segue-se uma descrição geral dos fundamentos da Psicologia Junguiana:

O INCONSCIENTE:

Segundo Von Franz (1996), o Inconsciente é tudo aquilo que sabemos ser psiquicamente real, mas que não é consciente. Trata-se de um conceito limítrofe, e negativo. Usamos esse conceito negativo para evitar um preconceito. Alguns o chamam de supraconsciente, outros de subconsciente, outros ainda falam em esfera divina ou base existencial.


O que é inconsciente é apenas o que não é consciente, o que permanece um mistério. Não sabemos o que é. Apenas que há fenômenos psíquicos que se manifestam através de sonhos, gestos involuntários, lapsos da fala, alucinações ou fantasias que não são conscientes.

 


Por exemplo, você pode durante o dia ter uma fantasia e dizer: "Que fantasia estranha! Que coisa mais louca! Não sei o que isso quer dizer." Se você não sabe o que ela quer dizer e acha que é louca, obviamente ela não é consciente, porque se o fosse, você saberia o que quer dizer. Você saberia a que a fantasia se refere. Ora, isso é um evento psíquico, que não ocorreu materialmente. Ocorreu enquanto evento psíquico e é o conjunto de eventos psíquicos não conscientes que chamamos de o inconsciente. (VON FRANZ, 1996, p.2, cap.2).
O Inconsciente, para Jung, compreende Inconsciente Pessoal e Inconsciente Coletivo. São domínio do Inconsciente, todos os conteúdos e processos psíquicos que não se relacionam com o ego. Segundo Jung, o Inconsciente “é a fonte das forças instintivas da psique e das formas ou categorias que as regulam, os arquétipos”. [1]
Em seu livro, O Eu e o Inconsciente, Jung discorre sobre o Inconsciente Pessoal sendo constituído além de todo o material reprimido na infância segundo a influência moral do ambiente, também todo o material psíquico que subjaz ao limiar da consciência, cujo marco divisório com o consciente não é tão rígido.
Esses aspectos do Inconsciente Pessoal, correspondem a todos os aspectos que em algum momento do desenvolvimento da personalidade não foram compatíveis com as tendências da consciência e foram, portanto reprimidos. Também constituindo-o, as percepções subliminares, ou seja, aquelas que foram captadas pelos nossos sentidos de forma subliminar, que nem nos demos conta de termos contato com o fato em si. Também conteúdos da memória que não necessitam estar presentes constantemente na consciência estão presentes no inconsciente pessoal. Todos estes conteúdos formam no Inconsciente Pessoal um grande banco de dados que poderão emergir na consciência em algum momento.
O Inconsciente Coletivo para Jung é a camada mais profunda da psique e constitui-se dos materiais que foram herdados da humanidade. A existência do Inconsciente Coletivo não depende de experiências individuais, como é o caso do Inconsciente Pessoal, porém, seu conteúdo precisa das experiências reais para expressar-se, já que são predisposições latentes.
Ao lado desses conteúdos inconscientes pessoais, há outros conteúdos que não provém das aquisições pessoais, mas da possibilidade hereditária do funcionamento psíquico em geral, ou seja, da estrutura cerebral herdada. São as conexões mitológicas, os motivos e imagens que podem nascer de novo, a qualquer tempo e lugar, sem tradição ou migração históricas. Denomino esses conteúdos de inconsciente coletivo. (JUNG, 1991).
Afirmando numa outra de suas obras que:
O inconsciente coletivo compreende toda a vida psíquica dos antepassados desde seus primórdios. É o pressuposto e a matriz de todos os fatos psíquicos e por isso exerce também uma influência que compromete altamente a liberdade da consciência, visto que tende constantemente a recolocar todos os processos conscientes em seus antigos trilhos. (JUNG, 1991,vol. VIII, par. 230).
OS COMPLEXOS:
Segundo Nise da Silveira, os complexos são agrupamentos de conteúdos psíquicos carregados de afetividade.
Compõem-se primariamente de um núcleo possuidor de intensa carga afetiva. Secundariamente estabelecem-se associações com outros elementos afins, cuja coesão em torno do núcleo é mantida pelo afeto comum a seus elementos. Formam-se assim verdadeiras unidades vivas, capazes de existência autônoma. Segundo a força de sua carga energética, o complexo torna-se um imã para todo fenômeno psíquico que ocorra ao alcance de seu campo de atração. (SILVEIRA, p.11, 1981)
Ela nos conta que a palavra complexo, com sua significação psicológica peculiar, foi introduzida por Jung. E que o complexo interfere na vida consciente, levando-nos a cometer lapsos e gafes, perturba a memória, envolve-nos em situações contraditórias, arquiteta sonhos e gera sintomas neuróticos. Obrigando-nos a perder a ilusão de que somos senhores absolutos em nossa própria casa.
A autonomia do complexo dependerá das conexões maiores ou menores que mantenha com a totalidade da organização psíquica. Por isso verifica-se em seu comportamento graus muito variados de independência.
Dos complexos depende o mal ou o bem estar da vida do indivíduo. Eles podem ser comparados, diz Jung, a infecções ou a tumores malignos que se desenvolvem sem qualquer intervenção da consciência. Como demônios soltos, infernizam a vida no lar e no trabalho.
Todavia é preciso acentuar que na Psicologia Junguiana, os complexos não são, por essência, elementos patológicos. "Significam que existe algo conflitivo e inassimilado - talvez um obstáculo mas também um estímulo para maiores esforços e assim podem vir a ser uma abertura para novas possibilidades de realização". Portanto, ao lado de seu papel negativo tão proclamado, os complexos poderão desempenhar uma função positiva. Tornam-se patológicos quando suam para si quantidades excessivas de energia psíquica. (SILVEIRA,1981, p. 11).

OS SONHOS:
        O sonho é uma manifestação espontânea de um aspecto inconsciente representada por uma imagem simbólica. Os sonhos são pontes importantes entre processos conscientes e inconscientes. Comparado à nossa vida onírica, o pensamento consciente contém menos emoções intensas e imagens simbólicas. Os símbolos oníricos freqüentemente envolvem muita energia psíquica.
Marie Louise Von Franz nos dá uma boa noção da influência dos sonhos em seu livro, “O caminho dos Sonhos”, fundamentando-o com inúmeras citações de Jung, entre elas, a que se segue:
A grande descoberta da psicologia profunda é que cinco ou seis vezes por noite a parte inconsciente da psique é retratada nos sonhos; ao relembrá-los, nossa mente consciente tem a oportunidade de observar conteúdos da mente inconsciente. No entanto, mesmo que o sonho seja lembrado, via de regra a informação não faz o menor sentido para a mente consciente e não é fácil de decifrar. (O inconsciente não se expressa através de uma linguagem racional prontamente acessível à mente consciente.) Pelo contrário, um sonho revela o inconsciente sob a forma de imagem, metáfora e símbolo, numa linguagem intimamente associada à da arte. Longe de ser exposições objetivas e prosaicas, os sonhos costumam ser confrontos altamente subjetivos e pessoais, nos quais o ego, o "eu", sente emoções que vão do medo e hilaridade à sensação de sublime paz e beleza. Assim como as peças teatrais, os poemas e a pintura, a linguagem dos sonhos transmite o poder e a sutileza tanto dos sentimentos como do pensamento racional.
Depois de pesquisar por muitos anos a linguagem dos sonhos, C. G. Jung descobriu e batizou alguns temas e figuras recorrentes que constituem a base dessa linguagem. Uma vez compreendidas, essas estruturas são facilmente reconhecíveis e os sonhos passam a fazer algum sentido para a mente consciente (V0N FRANZ, Cap. 2, 1996)
         Para Jung, os sonhos desempenham um importante papel complementar ou compensatório. Os sonhos ajudam a equilibrar as influências variadas a que estamos expostos em nossa vida consciente, sendo que tais influências tendem a moldar nosso pensamento de maneiras freqüentemente inadequadas à nossa personalidade e individualidade. A função geral dos sonhos, para Jung, é tentar estabelecer a nossa balança psicológica pela produção de um material onírico que reconstitui equilíbrio psíquico total.
         Jung abordou os sonhos como realidades vivas que precisam ser experimentadas e observadas com cuidado para serem compreendidas. Ele tentou descobrir o significado dos símbolos oníricos prestando atenção à forma e ao conteúdo do sonho e, com relação à análise dos sonhos, ele distanciou-se gradualmente da maneira psicanalítica na livre associação.

         Pelo fato do sonho lidar com símbolos, Jung achava que eles teriam mais de um significado, não podendo haver um sistema simples ou mecânico para sua interpretação. Qualquer tentativa de análise de um sonho precisa levar em conta as atitudes, a experiência e a formação do sonhador. É uma aventura comum vivida entre o analista e o analisando. O caráter das interpretações do analista é apenas experimental, até que elas sejam aceitas e sentidas como válidas pelo analisando.
         Mais importante do que a compreensão cognitiva dos sonhos é o ato de experienciar o material onírico e levá-lo a sério. Para o analista Junguiano devemos tratar nossos sonhos não como eventos isolados, mas como comunicações dos contínuos processos inconscientes.
AS ATITUDES INTROVERSÃO E EXTROVERSÃO:
         Jung considera os introvertidos como pessoas que concentram-se prioritariamente em seus próprios pensamentos e sentimentos, em seu mundo interior, tendendo à introspecção. O perigo para elas, é imergir de forma demasiada em seu mundo interior, perdendo ou tornando tênue o contato com o ambiente externo. O cientista distraído, estereotipado, é um exemplo claro deste tipo de pessoa absorta em suas reflexões em notável prejuízo do pragmatismo necessário à adaptação.
         Os extrovertidos, por sua vez, se envolvem com o mundo externo das pessoas e das coisas. Eles tendem a ser mais sociais e mais conscientes do que acontece à sua volta. Necessitam se proteger para não serem dominados pelas exterioridades e, ao contrário dos introvertidos, se alienarem de seus próprios processos internos. Algumas vezes esses indivíduos são tão orientados para os outros que podem acabar se apoiando quase exclusivamente nas idéias alheias, ao invés de desenvolverem suas próprias opiniões.
AS QUATRO FUNÇÕES PSÍQUICAS:
Segundo Marie Louise Von Franz, o ego é um núcleo psíquico de idéias carregadas de sentimento e que não podemos vê-lo objetivamente ou, caso o vejamos, é a partir de seu reflexo via inconsciente. Diz ela:
Ele desperta das profundezas toda manhã e reflete o mundo exterior diante de nós em imagens interiores (...) É o centro e o sujeito de todos os atos pessoais conscientes e de todos os esforços e realizações voluntários de adaptação. Parece ter uma estrutura quaternária 28, porque, quando estudou a maneira como os indivíduos se adaptam ao meio ambiente com a "luzinha", o ego, Jung descobriu que se podiam dividir essas tentativas de adaptação em quatro formas básicas de atividade psíquica ou função psicológica (FRANZ, 1997, cap2, p.5,6)
Cada uma dessas funções psicológicas, Pensamento, Sentimento, Sensação e Intuição podem ser experienciadas tanto de uma maneira introvertida quanto extrovertida, e assim se caracterizam. (SILVEIRA,1981, p.18):
1) A função sensação, que registra conscientemente fatos interiores e exteriores, de modo irracional;
2) A função pensamento, por meio da qual o nosso ego consciente estabelece uma ordem lógica racional (isto é, em conformidade com a razão em geral) entre objetos;
3) A função sentimento, que estabelece de maneira racional ou, alternativamente, "seleciona" hierarquias de valor (isso é mais importante, mais agradável, etc, do que aquilo);
4) A função intuição — tal como a sensação, de cunho irracional —, que se assemelha a uma espécie de percepção por meio do inconsciente e que parece preocupar-se, em essência, com as futuras possibilidades de seu objeto imediato. (A intuição não é idêntica à fantasia que Jung considera uma capacidade humana independente das funções, tal como o é a vontade)
OS ARQUÉTIPOS:
Segundo Jung, os arquétipos resultariam do depósito de impressões superpostas deixadas por vivências fundamentais comuns a todos os seres humanos independente da cultura e época: 
Assim como o nosso corpo é um verdadeiro museu de órgãos, cada um com a sua longa evolução histórica, devemos esperar encontrar também na mente uma organização análoga, nossa mente não poderia jamais ser um produto sem história, e situação oposta ao corpo em que existe (JUNG,1987, p.67).
Em sua obra, O Homem e seus símbolos (p.56) Jung, discorrendo sobre o valor do símbolo, salienta que há muitos deles, cuja natureza e origem não é individual mas, coletiva. Ele chegou a essa conclusão a partir de um sonho, em 1909, o denominado sonho da casa (p.56), que o direcionou para a construção do conceito de Inconsciente Coletivo, considerado como fundamental da psicologia analítica. Foi esse o momento que Jung vislumbrou pela primeira vez que “a psique tem uma estrutura histórica, tal como uma série de camadas arqueológicas nas quais a consciência é calcada por níveis psíquicos inconscientes que retroagem ao passado da própria raça humana” (JUNG, p. 67).
Ao narrar esse fato, podemos dizer, inaugural para a construção da sua Psicologia, na obra supra citada, Jung acrescenta: “por causa desse sonho pensei pela primeira vez na existência de um a priori coletivo da psique pessoal”. Essa constatação inicial foi ponto de partida para suas pesquisas. É Jung quem afirma: “Só mais tarde quando minhas experiências se multiplicaram e meu saber se consolidou , reconheci que esses modos funcionais eram formas de instinto: os arquétipos”. (JUNG, p.67).
Essas impressões, armazenadas através de milênios, seriam vivências típicas que se repetem ao longo da história e em todas as épocas.
Uma vez de posse dessa intuição, Jung dedicou-se a estudá-las intensamente, e reuniu uma série de mitos, contos de fadas e motivos religiosos de diversos lugares do mundo. Percebeu os surpreendentes paralelos entre imagens e mitos em grupos e locais e épocas diferentes que lhe levaram a concluir que há algo em comum para a origem de imagens psicóticas, imagens oníricas e fantasias pessoais. Pois é necessário ressaltar que os temas míticos não são encontrados apenas nos povos antigos: visões, alucinações, delírios trazem de permeio componentes míticos, além do que, os sonhos são a nossa mitologia. 
A existência do inconsciente coletivo não depende da experiência: Nascemos com uma herança psicológica que se soma á herança biológica. É o conjunto de todos os arquétipos e instintos. Trata-se, para Jung, de uma região obscura, uma camada mais profunda do inconsciente, constituída de padrões não-individuais. Contém toda a herança espiritual da evolução da humanidade e tem estrutura hereditária de funcionamento.
A Psicologia Analítica focaliza quatro arquétipos principais do inconsciente: a Sombra, a Anima, o Animus e o Self, entre outros.
O SELF:                

          Depois de haver completado os estudos sobre diversos arquétipos, Jung descobriu o arquétipo do Self. Esse é o arquétipo principal do Inconsciente Coletivo e é o arquétipo da organização da personalidade, que atrai para si e harmoniza os demais arquétipos. 
          Para Jung, a meta final de qualquer personalidade é chegar a um estado de auto-realização e de conhecimento do próprio Self. É através do desenvolvimento do Self que o ser humano fica motivado para aumentar a consciência , a percepção, a compreensão e o sentido da própria vida. O conceito de arquétipo do Self figurou ser o resultado mais importante das investigações Junguianas sobre o Inconsciente Coletivo.
          Para ele, consciente e inconsciente não estão necessariamente em oposição um ao outro, mas complementam-se mutuamente para formar uma totalidade: o Self.

       O Self é com freqüência figurado em sonhos ou imagens de forma impessoal, como um círculo, mandala, cristal ou pedra, ou de forma pessoal como um casal real, uma criança divina, ou na forma de outro símbolo de divindade. Todos estes são símbolos da totalidade, unificação, reconciliação de polaridades, ou equilíbrio dinâmico, os objetivos do processo de Individuação. O Self é um fator interno de orientação, muito diferente e até mesmo estranho ao Ego e à consciência.
        Para Jung, o Self não é apenas o centro, mas também toda a circunferência que abarca tanto o consciente quanto o inconsciente, ele é o centro desta totalidade, tal como o Ego é o centro da consciência. Ele pode, de início, aparecer em sonhos como uma imagem significante, um ponto ou uma sujeira de mosca, pelo fato do Self ser bem pouco familiar e pouco desenvolvido na maioria das pessoas.

          O desenvolvimento do Self não significa que o Ego seja dissolvido. Este último continua sendo o centro da consciência, mas agora ele é vinculado ao Self como conseqüência de um longo e árduo processo de compreensão e aceitação de nossos processos inconscientes. O Ego já não parece mais o centro da personalidade, mas uma das inúmeras estruturas dentro da psique.
A PERSONA:
         Originalmente Persona é uma palavra que designava a máscara usada pelo ator, assinalando o papel que este iria desempenhar na peça teatral.
Como o seu nome revela, ela é uma simples máscara da psique coletiva, máscara que aparenta uma individualidade, procurando convencer aos outros e a si mesma que é uma individualidade, quando, na realidade não passa de um papel no qual fala a psique coletiva (JUNG, 2008, p.32)
         A Persona representa um sistema útil de defesa, mas, quando exageradamente valorizada a ponto do ego consciente identificar-se com ela, mais dolorosa será a ação psicológica para despí-la.

A SOMBRA:
         O conceito de Sombra tem um lugar vital na Psicologia Analítica. Para Jung, é o centro do Inconsciente Pessoal, o núcleo do material que foi reprimido da consciência. A Sombra inclui as tendências, desejos, memórias e experiências que são rejeitadas pelo indivíduo como incompatíveis com a Persona e contrárias aos padrões e ideais sociais. Quanto mais forte for nossa Persona, e quanto mais nos identificarmos com ela, mais repudiaremos outras partes de nós mesmos.
         A Sombra representa aquilo que consideramos inferior em nossa personalidade e também aquilo que negligenciamos e nunca desenvolvemos em nós mesmos. Em sonhos, a Sombra freqüentemente aparece como um animal, um anão, um vagabundo ou qualquer outra figura de categoria mais baixa. A sombra não consiste apenas de omissões. Apresenta-se muitas vezes como um ato impulsivo ou inadvertido. Antes de se ter tempo para pensar, explode em atos surpreendentes.
Quando Jung chamou “sombra” a um aspecto da personalidade inconsciente, referia-se a um fator relativamente definido. Mas, por vezes, tudo quanto o ego desconhece mistura-se à sombra, incluindo as mais valiosas e nobres forças (JUNG, 1987, p.173).
         À medida que a Sombra se faz mais consciente, recuperamos partes previamente reprimidas de nós mesmos. Além disso, a Sombra não é apenas uma força negativa na psique. Ela é um depósito de considerável energia instintiva, espontaneidade e vitalidade, e é a fonte principal de nossa criatividade. Assim como todos os Arquétipos, a Sombra se origina no Inconsciente Coletivo e pode permitir acesso individual a grande parte do valioso material inconsciente que é rejeitado pelo Ego e pela Persona.

         No momento em que acharmos que a compreendemos, a Sombra aparecerá de outra forma. Lidar com a Sombra é um processo que dura a vida toda, consiste em olhar para dentro e refletir honestamente sobre aquilo que vemos lá.
         E nesse processo, é também importante observar os eventos externos como possibilidades de projeções desse conteúdo interno, valendo aqui ressaltar o conceito de projeção:
"Projeção" foi, originalmente, um conceito freudiano que Jung também usou na época, mas num contexto distinto . Não é difícil reconhecer na vida diária o que se designa por projeção. Trata-se da tendência de ver nos outros peculiaridades e formas de comportamento que nós mesmos exibimos sem que nos apercebamos disso. No fundo, há uma projeção sempre que sofremos um fascínio emocional excessivo, seja de amor ou de ódio. Em outras palavras, a projeção é uma transposição involuntária de alguma coisa inconsciente de nós mesmos no objeto externo. A ocorrência da projeção decorre, em última análise, do fenômeno psicológico universal e original que Jung denomina "identidade arcaica", uma condição na qual o homem primitivo, a criança e, de certa maneira, todo adulto, não se distinguem do seu ambiente e, por isso, estão mais ou menos "fundidos" com ele. (VON FRANZ, 1997, p.69).

A ANIMA E O ANIMUS
         Jung, em sua obra, “O Homem e seus Símbolos”(JUNG, 1987, p.177, 189) define Animus como a personificação masculina do inconsciente na mulher, tal como o correspondente feminino no inconsciente do homem, a Anima.

        A noção da bissexualidade de todo ser humano, antes de ser aceita pela ciência, era já uma intuição muito antiga. Encontramo-la, por exemplo, no mito dos Andróginos, apresentado por Aristófanes no Banquete de Platão. Os andróginos eram seres bissexuados, redondos, ágeis e tão possantes que Zeus chegou a temê-los. Para reduzir-lhes a força dividiu-os em duas metades masculina e feminina. Desde então cada um procura ansiosamente sua metade. O homem e a mulher sofrem esse mesmo sentimento, expresso pelo mito, de serem incompletos quando sozinhos, pois a natureza do homem pressupõe a mulher e a natureza da mulher pressupõe o homem.

        É importante, no processo de Individuação, a integração do Animus na mulher, e da Anima, no homem, pois, dessa forma, estarão dando força, cada um, de expressão aos componentes da sua psique, aparentemente dual, mas, em verdade, complementar, adquirindo o impulso necessário para uma maior auto-aceitação e desempenho na vida com clareza de propósito.

        John A. Sanford, em sua obra Os Parceiros Invisíveis, aborda a situação do relacionamento humano, sob o ponto de vista da manifestação, denominados por ele como “parceiros invisíveis”existentes no homem e na mulher que seriam os arquétipos anima-animus e da necessidade de expressão desses aspectos, de uma forma integrada ao ser, como fundamento para relações humanas mais inspiradoras e bem sedimentadas. Explicando, em seu livro, os aspectos positivos e negativos da Anima e do Animus.

        Os efeitos negativos da Anima e do Animus estão diretamente relacionados com a falta de percepção e a desvalorização, por parte do homem, do seu lado feminino, e com a falta de percepção da mulher, de seu lado masculino.

        Segundo Jung, a Anima, no seu aspecto negativo, se manifesta no homem, quando ele não reconhece e não respeita adequadamente os valores femininos existentes em si e que o homem fica tomado pela sua Anima, sempre que emoções e afetos estão agindo. Segundo ele, “ela intensifica, exagera, falsifica e mitologiza todos os relacionamentos emocionais com o trabalho dele e com outras pessoas de ambos os sexos”. (SANFORD, 2007, p.51).
Quando a Anima funciona em seu lugar correto, ela ajuda a ampliar e alargar a consciência do homem, e a enriquecer a sua personalidade, infundindo nele, através de sonhos, fantasias e idéias inspiradas, a percepção de um mundo interior de imagens psíquicas e de emoções vitalizantes.
Já a mulher, quando tomada pelo seu Animus, é afastada do seu próprio modo de pensar e de sentir, passando a ter uma maneira fria, uma atitude crítica, obstinada, levando-a a generalizações. No entanto, quando numa manifestação positiva,“pode agir como um guia que conduz a mulher até a sua alma, porque ela usa sua tocha da discriminação e da compreensão para iluminar o mundo interior dela.” (SANFORD, 2007, p.102), estabelecendo assim, ligação com a fonte da sua criatividade pessoal.
Marie Louise Von Franz, em “O caminho dos sonhos” (1996, p.97) afirma: "O Animus positivo é a consciência instintiva mais íntima da verdade interior, uma verdade interior básica que guia a mulher espiritual na sua individuação, para que realize o seu próprio ser."
Perceber a realidade da Anima e do Animus, portanto, requer um considerável esforço consciente que leva Jung a referir-se ao encontro com a Anima ou com o Animus como sendo a “obra-prima” da individuação.

O PROCESSO DE INDIVIDUAÇÃO: 
Foram as próprias experiências internas de Jung que o levaram à descoberta do Processo de Individuação, segundo ele narra em suas Memórias. Viveu-o intensamente m todas as suas fases e, paralelamente, observava que o curso de desenvolvimento da personalidade de seus analisandos seguia roteiro semelhante, sempre progredindo em direção a um centro, a um núcleo energético que se revelava existente no fundo maisíntimo da psique.
Segundo Jung, o processo de individuação é um movimento de circunvolução que conduz ao Self (o si mesmo), uma tendência instintiva a realizar plenamente potencialidades inatas. Um processo de desenvolvimento da totalidade. O que inclui o desenvolvimento do eixo Ego-Self, além da integração de várias partes da psique: Ego, Persona, Sombra, Anima ou Animus e outros Arquétipos inconscientes.
         O processo de individuação é descrito em imagens nos contos de fada, mitos, no opus alquímico, nos sonhos, nas diferentes produções do inconsciente. Sobretudo através dos sonhos, Jung verificou a constante emergência de imagens semelhantes que se sucediam, sugerindo o itinerário do caminho percorrido. Assim, baseando-se nessas observações descreveu as principais etapas do processo:
         A etapa preliminar é o desnudamento das falsas roupagens da Persona. Embora esta tenha funções protetoras importantes, ela é também uma máscara que esconde o Self e o Inconsciente.
         Ao analisarmos a Persona, dissolvemos a máscara e descobrimos que, aparentando ser individual, ela é de fato coletiva; em outras palavras, a Persona não passa de uma máscara da psique coletiva. No fundo, nada tem de real; ela representa um compromisso entre o indivíduo e a sociedade acerca daquilo que alguém parece ser: nome, título, ocupação, isto ou aquilo.
         O próximo passo é o confronto com a Sombra. Ficamos livres da sua influência à medida em que aceitamos a sua realidade e dela nos distinguimos. Tornando-nos capazes de assimilar o valioso material do Inconsciente Pessoal que é organizado ao redor dela.
         O terceiro passo é o confronto com a Anima ou com o Animus. Ao tomarmos consciência da atuação desses arquétipos na vida, o indivíduo se conscientiza da grande autonomia que eles possuem e de como esses arquétipos dominam aqueles que a ignoram ou os que aceitam cegamente suas imagens e projeções como se fossem deles mesmos.
         Nise da Silveira, comenta que depois de duras lutas, desfazem-se as personificações da Anima ou do Animus, “o inconsciente muda de aspecto e aparece sob uma forma simbólica nova, representando o Self, o núcleo mais interior da psique". (SILVEIRA, 2007, p. 35). Esse constitui o estágio final do processo de Individuação: o desenvolvimento do Self. Jung dizia que o si mesmo é nossa meta de vida, pois é a mais completa expressão daquela combinação do destino a que nós damos o nome de indivíduo. O Self torna-se o novo ponto central da psique, trazendo unidade à psique e integrando o material consciente e o inconsciente. O Ego é ainda o centro da consciência, mas não é mais visto como o núcleo de toda a personalidade.
A semente de um pinheiro da montanha contém em si a futura árvore em forma latente; mas cada semente cai a seu tempo num lugar próprio; sob o efeito de fatores diversos, como a qualidade do solo ou as rochas, o grau de declive e de exposição ao sol e ao vento. A totalidade latente do pinheiro na semente reage a essas circunstâncias desviando-se das pedras e inclinando-se para o sol, o que acaba moldando o crescimento da árvore. Assim um pinheiro individual lentamente toma corpo, constituindo a realização da sua totalidade, sua manifestação no mundo da realidade. Na falta da árvore viva, a imagem do pinheiro é apenas uma possibilidade, uma idéia abstrata.... A realização dessa singularidade no indivíduo é o objetivo do processo de individuação. (JUNG, 1987, p.162).

[1] Arquétipo, na psicologia analítica, significa a forma imaterial à qual os fenômenos psíquicos tendem a se moldar. Jung usou o termo para se referir aos modelos inatos que servem de matriz para o desenvolvimento da psique.


REFERÊNCIAS:
  
FRANZ, Marie Louise Von. C.G, Jung, Seu Mito em nossa Época.
Ed.Cultrix, SP,1997.
_______________________O Caminho dos Sonhos. Ed Cultrix, SP, 1996.
JUNG, C. G. A prática da psico- terapia. Petrópolis, Vozes, 1966
___________ Memórias, Sonhos e reflexões. Ed. Nova fronteira, RJ, 5ª ed., 1963.
___________ O Eu e o Inconsciente. Ed. Vozes, 21ª ed, 2008.
___________ O Homem e seus Símbolos. Nova Fronteira, 6ª. ed., 1987.
___________ O Significado da Constituição e da Herança para a Psicologia. Em A Dinâmica do Inconsciente. O. C. Vol. VIII. Par. 230. Editora Vozes, Petrópolis, 1991.
___________ Tipos Psicológicos. O.C.Vol. VI. Par. 851. Ed. Vozes, Petrópolis, 1991.
SANFORD, John. Os Parceiros Invisíveis. 10º Ed, Ed. Paulus , SP, 2007.
SILVEIRA, Nise.  Jung-vida e obra. 7º Ed. Ed. Paz e Terra, RJ, 1981.

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