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domingo, 16 de dezembro de 2012

                                    

A NOÇÃO DE REALIDADE E O PRINCÍPIO DA SINCRONICIDADE

                                     (Colaboração do Dr. Hélio Campos para o nosso Blog)

 
A NOÇÃO DE REALIDADE E O PRINCÍPIO DA SINCRONICIDADE

                                                  Helio Silva Campos[1]

 Todos nós desejamos apreender melhor as ocorrências e os eventos que vivenciamos interna e exteriormente. E, deste modo, nos situamos enquanto seres humanos aquinhoados com discernimento para tal. Uma busca sempre presente na mente daqueles que tentam desvendar a misteriosa origem do universo, e consequentemente da vida em nosso planeta. A sua realização é objeto comum encontrado tanto em antigas cosmogonias quanto nas atuais cosmologias, que procuram detectar evidências dos instantes primordiais do universo usando dispositivos tecnológicos cada vez mais sofisticados. 
Aqui historiamos brevemente este propósito enfatizando a noção de sincronicidade como uma vertente promissora a uma descrição mais aprofundada da realidade por envolver, diretamente, aquele que a ‘constroi, ou seja, o ser humano. 

1.       A Onipresente Unicidade 

Incessantemente  o ser humano busca concatenar a realidade sensorialmente vivenciada a conteudos oriundos do mundo interior (psíquico), e então ‘constroi’ o ambiente que o cerca. Em sociedades tradicionais, e.g., africana, chinesa, indiana, indígena, é comum atribuir às manifestações do reino natural um significado teleológico, um sinalizador do ‘por vir’, inferindo um propósito. Tal concepção sugere a ‘presença’ de uma unicidade (ou totalidade) cuja abrangência transcende o mundo físico visível. Na tradição chinesa, por exemplo, onde o pensamento não linear é base para assimilar a dinâmica da fenomenologia universal, a noção do Tao expressa a interconectibilidade holística de todos os seres. Uma  particularidade que pressupõe a ação de uma ordem subjetiva: tudo o que acontece em um dado momento inevitavelmente participa na qualidade única desse momento, incluindo o estado psicológico de um indivíduo (o observador), para o qual o momento presente é como uma ‘semente’ de uma situação ‘fora do tempo’. Nesta tradição, cada momento expressa uma configuração de coisas acidentais, todavia significativas, e não o resultado de um nexo de elos causais.
Esta implicada unicidade também é observada no legado da Grécia antiga que fundamentou o ‘pensar’ científico ocidental. Hipócrates [460-377 a.C.] acreditava numa ‘simpatia de todas as coisas’, ou seja, todas as coisas fluem conjuntamente no cosmos, enquanto o naturalista Teofrasto [371-288 a.C.] viu nessa ‘ligação comum de todas as coisas’ o próprio princípio divino. No Egito, especificamente na cidade de Alexandria, Philo [25 a.C.-42 d.C.] considerou essa simpatia como uma necessidade e uma amizade que une universo (‘necessidade’ antecipa a causalidade, ‘amizade’ antecipa a sincronicidade); muito tempo depois Plotino [205-270 d.C.] conjecturou que ‘as almas individuais’ originadas da ‘alma universal’ do mundo se acham ligadas por uma relação mútua de simpatia ou antipatia, onde a distância não exerce nenhuma influência.
Na Idade Média, a noção de uma realidade una foi notadamente embotada por influência da Igreja Católica. Entretanto, a ‘luz do pensamento livre’ iluminou a trajetória de alguns pensadores. Um deles foi Thomas de Aquino [1225?-1274] que resgatou a doutrina mágico-criativa da imaginatio, postulada pelo sábio persa conhecido na Europa como Avicena [980-1137], e ainda baseou-se numa ‘teoria das almas’ para envolver a nous poietikos, um conceito aristotélico desenvolvido pelos árabes. No misticismo islâmico, a nous poietikos é a energia criativa radiante do espírito divino, sendo comparável à luz. Então, Aquino atribuiu duas qualidades a nous poietikos: uma, ele identificou com Deus, ou a Sapientia Dei, a inteligência sobrenatural da força criativa divina, também descrita como uma espécie de ‘unidade primordial’; a outra qualidade seria ‘uma luz natural da alma’, a lumen naturale no ser humano, que afirma a presença divina na sua criação (o ser humano). Mais tarde, o alquimista belga Gerhard Dorn [1530-1584] explorou esta visão ao conceituar unus mundus, numa referência ao mundo integrado que ‘existia na mente de Deus antes da criação do universo, quando todos os opostos ainda estavam unido’.
Com o desenvolvimento da Ciência Moderna, no século XVII, uma descrição ou interpretação qualquer da fenomenologia universal categoriza uma abordagem lógica e objetiva dos resultados (estatísticos) obtidos em experimentos controlados. Para tanto, é fundamental respeitar parâmetros como o determinismo, continuismo e o princípio da causalidade, entre outros que devem ser válidos em  todas as circunstâncias. Embora o aspecto subjetivo não fosse contemplado diretamente, um dos formuladores dessa ‘nova ciência’, o filósofo e matemático alemão Gottfried Wilhelm von Leibniz [1646-1716] apresentou a teoria (metafísica) da harmonia preestabelecida: a correspondência das ideias com as realidades exteriores decorre da harmonia entre as ideias e as realidades, estabelecida desde a origem. De acordo com Leibniz, essas realidades (de natureza física) são constituidas de mônodas[2] dotadas de atividades internas. Umas são ‘mônodas psicológicas’, outras são ‘mônodas cósmicas’, e ambas evoluem paralelamente de modo que é possível estabelecer um ‘sincronismo absoluto’ dos acontecimentos psíquicos e físicos. Neste quadro, a ideia da mônoda, enquanto contorna o princípio da causalidade, expressa a continuidade entre esses reinos, sem contudo atender os outros mencionados parâmetros.
Nos primeiros anos do século XX, o até então soberano ‘edifício’ da Ciência Moderna foi abalado com novas e significativas descobertas. A inadequação dos formalismos existentes para explicar o comportamento descontínuo e acausal dos entes elementares (‘partículas’) do micromundo físico, impossibilitava uma interpretação objetiva da realidade e, desta maneira, os físicos propuseram a ‘quantização da energia’ associada a esses entes, sugerindo que existe um nível dinâmico mais profundo, inatingível a qualquer intervenção. Essa conjectura levou a ideia de ordenação acausal abrangendo o coletivo dos fenômenos que escapam à causalidade restrita, e.g. a meia-vida de átomos radioativos, a imprevisibilidade do comportamento de um átomo individual, o pêndulo de Foucault.  

2.       A Formulação do Princípio da Sincronicidade 

O panorama aqui brevemente referido sobre a noção de realidade física, serviu de base para o médico psiquiatra e criador da Psicologia dos Complexos (Analítica ou de Profundidade), Carl Gustav Jung, interpretar determinados conteudos de natureza psíquica coletado de seus pacientes.
Desde o início de seu trabalho com sonhos, Jung observou que os motivos oníricos tendiam a coincidir relativamente com situações reais, revelando um significado semelhante ou até mesmo idêntico. Tratando-se de uma fenomenologia indescritível sob uma abordagem causalista, Jung analisou esse material psíquico, profuso em imagens mitológicas, em duas vertentes principais: (a) usando a simbologia alquímica como uma das linguagens da psique (a outra é conceitual), em especial a noção de unus mundus; e (b), assimilando ensinamentos do I Ching (o ‘Livro das Mutações’), o antigo texto chinês de sabedoria e oráculo, o qual proporciona uma noção da realidade que ignora o princípio da causalidade.
Essa correlação com o ‘pensar’ tradicional questionava a visão de mundo (européia) dominada pela causalidade restrita, que não conduz a uma explicação satisfatória para o material psíquico. Uma vez que a ‘não linearidade’ intrínseca ao pensamento oriental envolve conjuntamente o acaso e a coincidência, a causalidade pode ser tratada meramente como uma hipótese, não uma verdade absoluta. Assim embasado, Jung argumentou que uma ocorrência acausal associada a algum evento pode ser interpretada como o resultado da interação entre a simultaneidade de algum fenômeno psíquico com um acontecimento físico. O que atendia ao seu propósito de formular uma base consistente para interpretar as estranhas ocorrências (aquelas de natureza mitológica) descritas por seus pacientes e, mais ainda, assimiliar mais profundamente os conteúdos advindos do confronto com o seu próprio inconsciente.
Até aqui abordamos algumas referências conceituais que contribuiram para Jung elaborar sua noção de sincronicidade. A primeira vez que Jung pronunciou em público a palavra sincronicidade foi nos seminários Dream Analysis, realizados em Londres no final dos anos 1920s. Embora Jung tenha reconhecido que foi estimulado a trabalhar nesta temática durante suas conversas com Albert Einstein, iniciadas nos anos 1910s, ele sentiu-se mais encorajado a elaborar a sua ‘teoria da sincronicidade’, por duas razões. A primeira, uma série de experimentos pioneiros sobre a fenomenologia paranormal realizada na década de 1930 pelo grupo do botânico estadunidense Joseph Banks Rhine, comprovando que existem acontecimentos relacionados entre si sem qualquer conexão causal. Relacionando este feito ao seu propósito, Jung externou, conclusivamente, que a sincronicidade significa, em primeiro lugar, a simultaneidade de um estado psíquico com um ou vários acontecimentos que aparecem como paralelos significativos de um estado subjetivo momentâneo. Quer dizer, existem equivalências (‘coincidências significativas’) entre acontecimentos que ocorrem no mundo físico e no reino psíquico que são ligados pela simultaneidade e pelo significado. A segunda razão foi o encontro com o físico Wolfgang Pauli, um dos formuladores da teoria quântica, que explicou a Jung o intrigante comportamento não-causal (acausal) das ‘partículas’ elementares no micromundo físico.
A postulada ordenação acausal, que contempla este tipo de comportamento, implica na existência de uma fonte subjacente de fenômenos aos quais não se pode atribuir uma determinada causa, e sim parecem mais serem expressões de uma ordem a priori global (‘totalidade cósmica’). Se na Física essa ordenação envolve conexões constantes e reprodutíveis, sem qualquer significado pessoal para o indivíduo (o ‘observador’), e.g., os fenômenos quânticos acausais, na Psicologia é diferente por conta do significado. Isto porque, para Jung, o significado numa sincronicidade ‘revela a si mesmo’ apenas quando um indivíduo está presente, logo, a sincronicidade não pode ser categorizada com um exemplo simples de ordenação acausal. Destacando este aspecto, ele externou: “eu me inclino porém a admitir que a  sincronicidade em sentido mais estrito é apenas um caso especial da organização geral, aquele da equivalência dos processos psíquicos e físicos onde o observador está em situação privilegiada de poder reconhecer o tertium comparationis”[3].
No plano individual, as sincronicidades podem ser ‘experienciadas’ como padrões dotados de significados que ‘espalham’ o reino dos sonhos, memórias e visões em padrões similares de eventos físicos no mundo ‘objetivo’ externo. É justamente a ‘experiência’ do significado pelo indivíduo numa sincronicidade que exclui esta do coletivo de uma ordenação acausal. Tem-se, agora, uma ordenação acausal geral que engloba a ordenação acausal e a sincronicidade em que, neste caso, o ‘terceiro termo de comparação’ é o significado implícito a qualquer ocorrência de sincronicidade, diferenciando esta de outras ocorrências acausais, por exemplo, os fenômenos paranormais. Sem dúvida, a referência de uma outra ciência, aliada a um apoio intelectual, estimulou Jung em sua tentativa de suplementar causalidade com o princípio acausal da sincronicidade. 

3.        O Conhecimento Absoluto e o Significado numa Sincronicidade 

Jung sempre destacou que a natureza transcendente do significado impossibilita elaborar uma definição ‘consciente’ do mesmo. Não sendo um produto do ego, e sim uma expressão do arquétipo do Si-Mesmo (Self) em um ambiente psíquico, o significado é vinculado a um conhecimento (inconsciente) que não depende de percepções sensoriais e dos consequentes processamentos cerebrais. Esse conhecimento, que Jung denominou de ‘conhecimento absoluto, e também descrito como a ‘inteligência’ do inconsciente coletivo, é a fonte do significado.
Tomado como uma ‘nuvem do saber’ para a nossa inteligência consciente, e ainda uma forma de compensação inconsciente, o significado constitui o elo principal de interação entre a consciência e o inconsciente, por ‘carregar’ o poder transformador do Si-Mesmo, influenciando decisivamente no processo de individuação de qualquer um de nós. Isto explica porque Jung identificou este processo como a percepção do próprio ‘significado da vida’, postulando uma unificação momentânea de dois estados psíquicos: o estado normal da consciência e o nível profundo da totalidade (psíquica) que reside na esfera do ‘conhecimento absoluto’. Nesse instante, ‘experiencia-se’ um momento numinoso[4] em que a sincronicidade (acausal) ‘personifica’ o significado transformativo no indivíduo e no seu habitat. Não por acaso Marie-Louise von Franz, a principal colaboradora de Jung, argumentou que o significado de um evento sincronístico não é idêntico ao ‘conhecimento absoluto’, vez que o significado ‘realiza-se’, temporalmente, na consciência de um indivíduo em determinado momento da sua vida. Por fim, ela sintetizou que a realização do significado não é uma simples aquisição da informação e sim  uma experiência viva que toca tanto o coração quanto a mente.
Mais ‘presentes’ em períodos de transição, cerimônias, crises, medos, além daqueles momentos especiais, como nascimento, morte, casamento, separação, mudanças na vida profissional, etc., os eventos sincronísticos só podem ser registrados quando a nossa consciência ‘desperta’ está relaxada. Todavia, o seu significado somente pode ser assimilado quando nos permitimos ´pensar´ com a nossa ´outra mente´, aquela que faz as conexões as quais, à primeira vista, não são óbvias. Para ‘alcançar’ esse estado é necessário aprender a usar essa ‘outra mente’ com o ‘espírito livre’ e o ‘coração aberto’. 

4.       Jung e Pauli e a Relação Mente-Matéria 

O encontro com Pauli foi crucial para Jung tratar a sincronicidade como uma relação mente-matéria. Vislumbrando o perigo de associar indevidamente o aspecto subjetivo aquele racional, descritivo, nas ocorrências da sincronicidade, Pauli recorreu ao princípio da complementaridade de Niels Bohr para equilibrar duas visões da realidade, no caso, o racionalismo ocidental (europeu) e o misticismo oriental. Nesta consideração, a irracionalidade, i.e., o aspecto subjetivo presente nos conteudos psíquicos (por exemplo, os sonhos) seria a parte complementar da racionalidade descritiva da realidade, formando a ‘unidade de pensamento’. De seu lado, Jung percebeu que o aprofundamento na pesquisa psicológica levou ao limite de certos conteudos irrepresentáveis - os arquétipos, os constituintes primordiais e estruturais do inconsciente coletivo - e, de maneira similar, a pesquisa na física quântica também chega aos esquemas igualmente irrepresentáveis, no caso as ‘partículas’ elementares, que são os entes fundamentais de toda a matéria, para os quais é impossível exaurir qualquer descrição espaço-temporal.
Inusitadamente, no micromundo físico esses entes podem exibir tanto um comportamento material quanto um comportamento ondulatório, a depender do procedimento usado para registrá-los. Podemos mesmo admitir que eles possuem um comportamento ‘transgressor’. Jung já observara uma ‘transgressividade’ dos arquétipos quando esses atingem certas áreas limítrofes àquelas que normalmente chamamos de ‘materiais’ (‘físicas’): “eu daria o nome de transgressividade porque os arquétipos não se acham de maneira certa e exclusiva na esfera psísquica, mas podem ocorrer também em circunstâncias não psíquicas (equivalência de um processo físico externo com um processo psíquico)[5].” Esta qualidade dos arquétipos Jung denominou de psicóide, referindo-se ao inobservável e irrepresentáveis derradeiro domínio que é tanto matéria quanto mente e ainda nenhum dos dois.
Em sua incursão para assimilar a noção de sincronicidade, Pauli observou esta qualidade arquetípica quando se referiu a padrões transcendentes que se estendem do reino da consciência e da mente para o mundo da matéria e energia. Para ele, através da psicóide é possivel associar sincronicidade e arquétipo. Se um indivíduo ‘experiencia’ uma coincidência quando um arquétipo é intensamente constelado no seu inconsciente, o que para ele seria uma evidência de uma ligação direta de um arquétipo com a sincronicidade, então a sincronicidade também pode ser chamada de ‘ativação dos arquétipos’, porquanto implica numa relação essencialmente significativa dos aspectos mentais e materiais do universo.
Em suma, não há uma maneira de introduzir a sincronicidade no atual contexto científico. A noção de sincronicidade conduz ao limiar de uma transformação radical necessária nas ciências, uma transformação que não está relacionada às mesmas, mas as colocará em patamares ‘adequados ‘que proveriam uma descrição mais ampla da realidade. A aceitação da sincronicidade dependerá de sua contribuição para o plano evolucionário criativo das ciências. De fato, cada vez mais observa-se que a busca do significado é uma questão muito mais vital para nós do que a busca da informação parcial. Não por acaso Jung argumentou que sem uma reflexão consciente do ser humano, o mundo é uma máquina gigantesca sem significado, pois em nossa experiência, o ser humano é a única criatura que é capaz de averiguar qualquer significado.

 



[1] Doutor em Ciências Físicas. Professor do Instituto de Humanidades, Artes e Ciências Prof. Milton Santos ( IHAC-UFBA)
[2] Refere-se a noção metafísica de scintilla tomada de Giordano Bruno, representando a ‘unidade mínima’, ou ‘ substância simples’ de um meio. Leibniz também as denominou de ‘almas de organismos vivos’ num paraleo à ideia de microcosmo que encerra a totalidade em si.
[3] C.G. JUNG, A Dinamica do Inconsciente, Petropolis: Vozes, 1991, §955.
[4] Termo derivado do verbo, em latim, nueve, que significa ‘notificar’, ‘dar um sinal’.
[5]  C.G. JUNG, A Dinâmica do Inconsciente, Petrópolis: Vozes, 1991, §954.

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