A NOÇÃO DE REALIDADE E O PRINCÍPIO DA SINCRONICIDADE
A NOÇÃO DE REALIDADE E O PRINCÍPIO DA SINCRONICIDADE
Aqui historiamos
brevemente este propósito enfatizando a noção de sincronicidade como uma
vertente promissora a uma descrição mais aprofundada da realidade por envolver,
diretamente, aquele que a ‘constroi, ou seja, o ser humano.
1.
A Onipresente Unicidade
Incessantemente o ser humano busca concatenar a realidade
sensorialmente vivenciada a conteudos oriundos do mundo interior (psíquico), e
então ‘constroi’ o ambiente que o cerca. Em sociedades tradicionais, e.g., africana, chinesa, indiana,
indígena, é comum atribuir às manifestações do reino natural um significado
teleológico, um sinalizador do ‘por vir’, inferindo um propósito. Tal concepção
sugere a ‘presença’ de uma unicidade (ou totalidade) cuja abrangência
transcende o mundo físico visível. Na tradição
chinesa, por exemplo, onde o pensamento não linear é base para assimilar a
dinâmica da fenomenologia universal, a noção do Tao expressa a interconectibilidade holística de todos os seres.
Uma particularidade que pressupõe
a ação de uma ordem subjetiva: tudo o que acontece em um dado momento
inevitavelmente participa na qualidade única desse momento, incluindo o estado
psicológico de um indivíduo (o observador), para o qual o momento presente é
como uma ‘semente’ de uma situação ‘fora do tempo’. Nesta tradição, cada momento expressa uma configuração de coisas acidentais,
todavia significativas, e não o resultado de um nexo de elos causais.
Esta implicada unicidade
também é observada no legado da Grécia antiga que fundamentou o ‘pensar’
científico ocidental. Hipócrates [460-377 a.C.] acreditava numa ‘simpatia de
todas as coisas’, ou seja, todas as coisas fluem conjuntamente no cosmos,
enquanto o naturalista Teofrasto [371-288 a.C.] viu nessa ‘ligação comum de
todas as coisas’ o próprio princípio divino. No Egito, especificamente na
cidade de Alexandria, Philo [25 a.C.-42 d.C.] considerou essa simpatia como uma
necessidade e uma amizade que une universo (‘necessidade’ antecipa a
causalidade, ‘amizade’ antecipa a sincronicidade); muito tempo depois Plotino
[205-270 d.C.] conjecturou que ‘as almas individuais’
originadas da ‘alma universal’ do mundo se acham ligadas por uma relação mútua
de simpatia ou antipatia, onde a distância não exerce nenhuma influência.
Na Idade Média, a noção
de uma realidade una foi notadamente
embotada por influência da Igreja Católica. Entretanto, a ‘luz do pensamento
livre’ iluminou a trajetória de alguns pensadores. Um deles foi Thomas de
Aquino [1225?-1274] que resgatou a doutrina mágico-criativa da imaginatio, postulada pelo sábio persa
conhecido na Europa como Avicena [980-1137], e ainda baseou-se numa ‘teoria das
almas’ para envolver a nous poietikos,
um conceito aristotélico desenvolvido pelos árabes. No misticismo islâmico, a nous poietikos é a energia criativa
radiante do espírito divino, sendo comparável à luz. Então, Aquino atribuiu
duas qualidades a nous poietikos:
uma, ele identificou com Deus, ou a Sapientia
Dei, a inteligência sobrenatural da força criativa divina, também descrita
como uma espécie de ‘unidade primordial’; a outra qualidade seria ‘uma luz
natural da alma’, a lumen naturale no
ser humano, que afirma a presença divina na sua criação (o ser humano). Mais
tarde, o alquimista belga Gerhard Dorn [1530-1584] explorou esta visão ao
conceituar unus mundus, numa
referência ao mundo integrado que ‘existia na mente de Deus antes da criação do
universo, quando todos os opostos ainda estavam unido’.
Com o desenvolvimento da
Ciência Moderna, no século XVII, uma descrição ou interpretação qualquer da
fenomenologia universal categoriza uma abordagem lógica e objetiva dos
resultados (estatísticos) obtidos em experimentos controlados. Para tanto, é
fundamental respeitar parâmetros como o determinismo, continuismo e o princípio
da causalidade, entre outros que devem ser válidos em todas as circunstâncias. Embora o aspecto
subjetivo não fosse contemplado diretamente, um dos formuladores dessa ‘nova
ciência’, o filósofo e matemático alemão Gottfried Wilhelm von Leibniz
[1646-1716] apresentou a teoria (metafísica) da harmonia preestabelecida:
a correspondência das ideias com as realidades exteriores decorre da harmonia
entre as ideias e as realidades, estabelecida desde a origem. De acordo com
Leibniz, essas realidades (de natureza física) são constituidas de mônodas[2]
dotadas de atividades internas. Umas são ‘mônodas psicológicas’, outras são
‘mônodas cósmicas’, e ambas evoluem paralelamente de modo que é possível
estabelecer um ‘sincronismo absoluto’ dos acontecimentos psíquicos e físicos.
Neste quadro, a ideia da mônoda,
enquanto contorna o princípio da causalidade, expressa a continuidade entre
esses reinos, sem contudo atender os outros mencionados parâmetros.
Nos primeiros anos do
século XX, o até então soberano ‘edifício’ da Ciência Moderna foi abalado com
novas e significativas descobertas. A inadequação dos formalismos existentes
para explicar o comportamento descontínuo e acausal dos entes elementares
(‘partículas’) do micromundo físico, impossibilitava uma interpretação objetiva
da realidade e, desta maneira, os físicos propuseram a ‘quantização da energia’
associada a esses entes, sugerindo que existe um nível dinâmico mais profundo,
inatingível a qualquer intervenção. Essa conjectura levou a ideia de ordenação acausal abrangendo o coletivo
dos fenômenos que escapam à causalidade restrita, e.g. a meia-vida de átomos radioativos, a imprevisibilidade do
comportamento de um átomo individual, o pêndulo de Foucault.
2.
A Formulação do Princípio da
Sincronicidade
O panorama aqui
brevemente referido sobre a noção de realidade física, serviu de base para o
médico psiquiatra e criador da Psicologia dos Complexos (Analítica ou de
Profundidade), Carl Gustav Jung, interpretar determinados conteudos de natureza
psíquica coletado de seus pacientes.
Desde o início de seu
trabalho com sonhos, Jung observou que os motivos oníricos tendiam a coincidir
relativamente com situações reais, revelando um significado semelhante ou até
mesmo idêntico. Tratando-se de uma fenomenologia indescritível sob uma
abordagem causalista, Jung analisou esse material psíquico, profuso em imagens
mitológicas, em duas vertentes principais: (a) usando a simbologia alquímica
como uma das linguagens da psique (a outra é conceitual), em especial a noção
de unus mundus; e (b), assimilando
ensinamentos do I Ching (o ‘Livro das
Mutações’), o antigo texto chinês de sabedoria e oráculo, o qual proporciona
uma noção da realidade que ignora o princípio da causalidade.
Essa correlação com o
‘pensar’ tradicional questionava a visão de mundo (européia) dominada pela
causalidade restrita, que não conduz a uma explicação satisfatória para o
material psíquico. Uma vez que a ‘não linearidade’ intrínseca ao pensamento
oriental envolve conjuntamente o acaso e a coincidência, a causalidade pode ser
tratada meramente como uma hipótese, não uma verdade absoluta. Assim embasado,
Jung argumentou que uma ocorrência acausal associada a algum evento pode ser
interpretada como o resultado da interação entre a simultaneidade de algum
fenômeno psíquico com um acontecimento físico. O que atendia ao seu propósito
de formular uma base consistente para interpretar as estranhas ocorrências
(aquelas de natureza mitológica) descritas por seus pacientes e, mais ainda,
assimiliar mais profundamente os conteúdos advindos do confronto com o seu
próprio inconsciente.
Até aqui abordamos
algumas referências conceituais que contribuiram para Jung elaborar sua noção
de sincronicidade. A primeira vez que Jung pronunciou em público a palavra
sincronicidade foi nos seminários Dream
Analysis, realizados em Londres no
final dos anos 1920s. Embora Jung tenha reconhecido que foi estimulado a
trabalhar nesta temática durante suas conversas com Albert Einstein, iniciadas
nos anos 1910s, ele sentiu-se mais encorajado a elaborar a sua ‘teoria da
sincronicidade’, por duas razões. A primeira, uma série de experimentos
pioneiros sobre a fenomenologia paranormal realizada na década de 1930 pelo
grupo do botânico estadunidense Joseph Banks Rhine, comprovando que existem
acontecimentos relacionados entre si sem qualquer conexão causal. Relacionando
este feito ao seu propósito, Jung externou, conclusivamente, que a
sincronicidade significa, em primeiro lugar, a simultaneidade de um estado
psíquico com um ou vários acontecimentos que aparecem como paralelos
significativos de um estado subjetivo momentâneo. Quer dizer, existem
equivalências (‘coincidências significativas’) entre acontecimentos que ocorrem
no mundo físico e no reino psíquico que são ligados pela simultaneidade e pelo
significado. A segunda razão foi o encontro com o físico Wolfgang Pauli, um dos
formuladores da teoria quântica, que explicou a Jung o intrigante comportamento
não-causal (acausal) das ‘partículas’ elementares no micromundo físico.
A postulada ordenação acausal, que contempla este
tipo de comportamento, implica na existência de uma fonte subjacente de
fenômenos aos quais não se pode atribuir uma determinada causa, e sim parecem
mais serem expressões de uma ordem a
priori global (‘totalidade cósmica’). Se na Física essa ordenação envolve
conexões constantes e reprodutíveis, sem qualquer significado pessoal para o
indivíduo (o ‘observador’), e.g., os fenômenos quânticos acausais, na Psicologia
é diferente por conta do significado. Isto porque, para Jung, o significado
numa sincronicidade ‘revela a si mesmo’ apenas quando um indivíduo está
presente, logo, a sincronicidade não pode ser categorizada com um exemplo
simples de ordenação acausal. Destacando este aspecto, ele externou: “eu me
inclino porém a admitir que a sincronicidade em sentido mais estrito é
apenas um caso especial da organização geral, aquele da equivalência dos
processos psíquicos e físicos onde o observador está em situação privilegiada
de poder reconhecer o tertium
comparationis”[3].
No plano individual, as
sincronicidades podem ser ‘experienciadas’ como padrões dotados de significados
que ‘espalham’ o reino dos sonhos, memórias e visões em padrões similares de
eventos físicos no mundo ‘objetivo’ externo. É justamente a ‘experiência’ do
significado pelo indivíduo numa sincronicidade que exclui esta do coletivo de
uma ordenação acausal. Tem-se,
agora, uma ordenação acausal geral
que engloba a ordenação acausal e a
sincronicidade em que, neste caso, o ‘terceiro termo de comparação’ é o significado implícito a qualquer
ocorrência de sincronicidade, diferenciando esta de outras ocorrências
acausais, por exemplo, os fenômenos paranormais. Sem dúvida, a referência de
uma outra ciência, aliada a um apoio intelectual, estimulou Jung em sua
tentativa de suplementar causalidade com o princípio acausal da sincronicidade.
3.
O Conhecimento Absoluto e o Significado numa
Sincronicidade
Jung sempre destacou que
a natureza transcendente do significado impossibilita elaborar uma definição
‘consciente’ do mesmo. Não sendo um produto do ego, e sim uma expressão do
arquétipo do Si-Mesmo (Self) em um ambiente psíquico, o
significado é vinculado a um conhecimento (inconsciente) que não depende de
percepções sensoriais e dos consequentes processamentos cerebrais. Esse
conhecimento, que Jung denominou de ‘conhecimento absoluto, e também descrito
como a ‘inteligência’ do inconsciente coletivo, é a fonte do significado.
Tomado como uma ‘nuvem
do saber’ para a nossa inteligência consciente, e ainda uma forma de
compensação inconsciente, o significado constitui o elo principal de interação
entre a consciência e o inconsciente, por ‘carregar’ o poder transformador do Si-Mesmo, influenciando decisivamente no
processo de individuação de qualquer um de nós. Isto explica porque Jung
identificou este processo como a percepção do próprio ‘significado da vida’,
postulando uma unificação momentânea de dois estados psíquicos: o estado normal
da consciência e o nível profundo da totalidade (psíquica) que reside na esfera
do ‘conhecimento absoluto’. Nesse instante, ‘experiencia-se’ um momento numinoso[4]
em que a sincronicidade (acausal)
‘personifica’ o significado transformativo no indivíduo e no seu habitat. Não
por acaso Marie-Louise von Franz, a principal colaboradora de Jung, argumentou
que o significado de um evento sincronístico não é idêntico ao ‘conhecimento
absoluto’, vez que o significado ‘realiza-se’, temporalmente, na consciência de
um indivíduo em determinado momento da sua vida. Por fim, ela sintetizou que a
realização do significado não é uma simples aquisição da informação e sim uma experiência viva que toca tanto o coração
quanto a mente.
Mais ‘presentes’ em
períodos de transição, cerimônias, crises, medos, além daqueles momentos
especiais, como nascimento, morte, casamento, separação, mudanças na vida
profissional, etc., os eventos sincronísticos só podem ser registrados quando a
nossa consciência ‘desperta’ está relaxada. Todavia, o seu significado
somente pode ser assimilado quando nos permitimos ´pensar´ com a nossa ´outra
mente´, aquela que faz as conexões as quais, à primeira vista, não são óbvias.
Para ‘alcançar’ esse estado é necessário aprender a usar essa ‘outra mente’ com
o ‘espírito livre’ e o ‘coração aberto’.
4.
Jung e Pauli e a Relação
Mente-Matéria
O encontro com Pauli foi
crucial para Jung tratar a sincronicidade como uma relação mente-matéria.
Vislumbrando o perigo de associar indevidamente o aspecto subjetivo aquele
racional, descritivo, nas ocorrências da sincronicidade, Pauli recorreu ao
princípio da complementaridade de Niels Bohr para equilibrar duas visões da
realidade, no caso, o racionalismo ocidental (europeu) e o misticismo oriental.
Nesta consideração, a irracionalidade, i.e., o aspecto subjetivo presente nos
conteudos psíquicos (por exemplo, os sonhos) seria a parte complementar da
racionalidade descritiva da realidade, formando a ‘unidade de pensamento’. De
seu lado, Jung percebeu que o aprofundamento na pesquisa psicológica levou ao
limite de certos conteudos irrepresentáveis - os arquétipos, os constituintes primordiais e estruturais do
inconsciente coletivo - e, de maneira similar, a pesquisa na física quântica
também chega aos esquemas igualmente irrepresentáveis, no caso as ‘partículas’
elementares, que são os entes fundamentais de toda a matéria, para os quais é
impossível exaurir qualquer descrição espaço-temporal.
Inusitadamente, no
micromundo físico esses entes podem exibir tanto um comportamento material
quanto um comportamento ondulatório, a depender do procedimento usado para
registrá-los. Podemos mesmo admitir que eles possuem um comportamento
‘transgressor’. Jung já observara uma ‘transgressividade’ dos arquétipos quando
esses atingem certas áreas limítrofes àquelas que normalmente chamamos de
‘materiais’ (‘físicas’): “eu daria o nome de transgressividade porque os arquétipos não se acham de maneira certa e
exclusiva na esfera psísquica, mas
podem ocorrer também em circunstâncias não psíquicas (equivalência de um
processo físico externo com um processo psíquico)[5].” Esta
qualidade dos arquétipos Jung denominou de psicóide,
referindo-se ao inobservável e irrepresentáveis derradeiro domínio que é tanto
matéria quanto mente e ainda nenhum dos dois.
Em sua incursão para assimilar
a noção de sincronicidade, Pauli observou esta qualidade arquetípica quando se
referiu a padrões transcendentes que se estendem do reino da consciência e da
mente para o mundo da matéria e energia. Para ele, através da psicóide é possivel associar
sincronicidade e arquétipo. Se um indivíduo ‘experiencia’ uma coincidência
quando um arquétipo é intensamente constelado no seu inconsciente, o que para
ele seria uma evidência de uma ligação direta de um arquétipo com a
sincronicidade, então a sincronicidade também pode ser chamada de ‘ativação dos
arquétipos’, porquanto implica numa relação essencialmente significativa dos
aspectos mentais e materiais do universo.
Em suma, não há uma
maneira de introduzir a sincronicidade no atual contexto científico. A noção de
sincronicidade conduz ao limiar de uma transformação radical necessária nas
ciências, uma transformação que não está relacionada às mesmas, mas as colocará
em patamares ‘adequados ‘que proveriam uma descrição mais ampla da realidade. A
aceitação da sincronicidade dependerá de sua contribuição para o plano
evolucionário criativo das ciências. De fato, cada vez mais observa-se que a
busca do significado é uma questão muito mais vital para nós do que a busca da
informação parcial. Não por acaso Jung argumentou que sem uma reflexão
consciente do ser humano, o mundo é uma máquina gigantesca sem significado,
pois em nossa experiência, o ser humano é a única criatura que é capaz de
averiguar qualquer significado.
[1] Doutor em Ciências Físicas. Professor do Instituto de
Humanidades, Artes e Ciências Prof. Milton Santos ( IHAC-UFBA)
[2]
Refere-se a noção metafísica de scintilla tomada de Giordano Bruno,
representando a ‘unidade mínima’, ou ‘ substância simples’ de um meio. Leibniz
também as denominou de ‘almas de organismos vivos’ num paraleo à ideia de
microcosmo que encerra a totalidade em si.
[3] C.G. JUNG, A
Dinamica do Inconsciente, Petropolis: Vozes, 1991, §955.
[5] C.G. JUNG, A Dinâmica do Inconsciente, Petrópolis:
Vozes, 1991, §954.

Nenhum comentário:
Postar um comentário